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Cidades inteligentes, mudanças climáticas e vulnerabilidades

  • majutavares
  • 1 de mai. de 2020
  • 5 min de leitura

[texto adaptado]


Atualmente, mais da metade da população mundial vive em cidades e se espera que esse número chegue em 70% até 2050.

Nesse contexto, as cidades ocupam papel de destaque em relação às mudanças climáticas, já que tendem a ser os locais de maior emissão de gases de efeito estufa (GEE) causado pelas atividades antrópicas e onde muitos dos impactos ocorrerão.


Inúmeros são os desafios para as cidades, em especial as mais vulneráveis, localizadas principalmente em países em desenvolvimento, que já sofrem com assentamentos urbanos informais densamente povoados, muitos localizados em áreas de risco de deslizamentos e inundações.

A mudança climática se soma como um fator adicional às vulnerabilidades pré-existentes, e a ocorrência de eventos climáticos extremos, como variações de temperaturas, ilhas de calor, aumento do nível médio do mar, fortes chuvas, tempestades, inundações, deslizamentos e eventos de seca extrema já demonstram que as cidades deverão se preparar para serem mais resilientes.

A relação entre cidades e mudanças climáticas pode ser entendida por duas vertentes, uma é a contribuição das cidades para o aquecimento do planeta, devido às emissões de GEE, advindas principalmente da queima de combustíveis fósseis nos setores de energia, transportes e habitação; já a segunda vertente é como as cidades vêm sofrendo com os impactos das mudanças climáticas, com redução da mobilidade urbana, danos na infraestrutura construída e perda de vidas.

Dessa forma, o enfrentamento das mudanças climáticas é dividido em duas frentes: (1) a mitigação, que são ações que visam diminuir as emissões dos GEE, e (2) a adaptação, que está relacionada às medidas para adaptar os setores da sociedade, sendo na sua maioria relacionadas à melhoria da infraestrutura e recuperação de áreas degradadas, como a criação de infraestrutura verde e adaptação baseada na natureza.


Recentemente, o termo cidade inteligente (ou smart city) tem ganhado cada vez mais espaço, sendo uma das promessas para solucionar os diversos problemas existentes nos centros urbanos, inclusive aqueles relacionados ao problema das mudanças climáticas. Entende-se como uma cidade inteligente aquela que traz melhorias na vida de seus cidadãos, oferecimento de serviços (transportes, energia, saneamento, recreação, etc.) de qualidade, com um uso mais eficiente de recursos, com o maior emprego de tecnologias da informação e comunicação (TICs). As TICs prometem revolucionar totalmente o funcionamento e gestão das cidades, a partir do uso de big data, inteligência artificial, machine learning e internet das coisas (IoT, Internet of Things).


Neste contexto, surge um questionamento importante: como as cidades, principalmente aquelas mais vulneráveis, podem se tornar mais inteligentes para o enfrentamento das mudanças climáticas?


Soluções tecnológicas X Baseadas na natureza

As TICs podem ser aplicadas em diferentes setores, entre eles: transporte (carros automatizados e elétricos, sensores que indicam vagas de garagens livres), produção de energia (redes inteligentes), iluminação pública (iluminação LED com painéis fotovoltaicos com sensores), gestão de resíduos (coleta e identificação de resíduos com o uso de sensores integrados a sistemas de informação geográfica – SIG), segurança (reconhecimento facial, prevenção de desastres ambientais, etc.), entre outros. Essas tecnologias, quando bem implementadas e geridas, podem trazer inúmeros benefícios para as cidades e seus cidadãos, inclusive auxiliando a reduzir impactos relacionados às mudanças climáticas.


Cidades ecológicas ou com soluções baseadas na natureza são aquelas pensadas para funcionar de forma similar à natureza e nas relações ecológicas (HERZOG, 2013). Existem diversas tecnologias, entre elas: coberturas e fachadas verdes, jardins de chuvas, hortas urbanas, parques lineares, valas vegetadas, entre outros. Todas essas tecnologias têm em comum o fato de utilizarem a vegetação como um elemento principal para a entrega de algum serviço à edificação, bairro ou cidade. Elas trazem diversos benefícios: regulação hídrica e da drenagem urbana, melhoria do conforto térmico, do microclima urbano, aumento da biodiversidade, sequestro de CO2 e poluentes e aumento da qualidade da vida dos cidadãos.


Quando comparada às soluções tecnológicas, percebe-se que os dois tipos de soluções apresentados não são concorrentes, mas sim complementares.


Estratégias para mitigação dos gases de efeito estufa

Como grande parte das emissões de GEE nas cidades estão relacionadas ao setor de transporte, é de se esperar que cidades compactas e densificadas apresentem menor quantidade de emissão de GEE. Sem contar que nesse modelo há menor gasto com construção e manutenção de infraestrutura (rede viária, saneamento, iluminação, etc.).

O uso de soluções baseadas na natureza tem um papel fundamental na mitigação dos GEE, já que a fotossíntese realizada pelas plantas é a forma mais fácil e barata de absorver e estocar CO2. Ademais, o reflorestamento tem grande papel nas cidades, pois além do sequestro de carbono, aumenta a biodiversidade e proporciona outros serviços ecossistêmicos, principalmente para o caso do Brasil que possui condições climáticas favoráveis e necessidade de recuperação de várias áreas degradadas.


Indo mais além, não podemos esquecer das regiões metropolitanas. Pois embora uma cidade possa ser mais eficiente do ponto de vista de uso de seus recursos, pode haver uma transferência de impactos negativos para as cidades vizinhas, nos famosos transportes pendulares, por exemplo, que são problemas corriqueiros em grandes áreas metropolitanas como a de São Paulo e do Rio de Janeiro.


Vulnerabilidade e adaptações das cidades

Do ponto de vista da população, de acordo com a OMS, alguns deles merecem atenção especial do ponto de vista da vulnerabilidade a desastres: crianças, mulheres, idosos, desnutridos e pessoas doentes ou imunocomprometidas.

Do ponto de vista da localização, cidades localizadas em zonas costeiras e áreas carentes de infraestrutura (saneamento, energia, transportes, etc.), situadas em áreas de risco (como encostas de morros) e onde existe alto índice de violência, de construções e trabalhos informais tendem a ser as mais vulneráveis do ponto de vista das mudanças climáticas (Ribeiro, 2016).


Nessa ótica, quando pensamos em cidades mais inteligentes, o principal benefício seria a identificação e mapeamento desses grupos e áreas de risco de uma forma mais rápida e eficiente, adiantando possíveis impactos e prevendo formas de solucioná-los.

Com a crise causada pelo COVID-19 apareceram algumas iniciativas desenvolvidas pelos próprios cidadãos como a plataforma “Urbanistas contra o Corona” que tem o objetivo de mapear as áreas mais vulneráveis, com o olhar especial para as comunidades carentes.

Um exemplo interessante, voltado para os grupos vulneráveis, é a startup “Glória”, que foi criada para o combate a violência contra a mulheres e coleta dados por meio de inteligência artificial e machine learning.


Acreditamos que empresas de inovação e, principalmente, startups, que fazem uso intensivo das TICs, cada vez mais se dedicarão a resolver problemas relacionados às mudanças climáticas e desafios emergentes das cidades.

Do ponto de vista das soluções baseadas na natureza, como foi dito anteriormente, é de se esperar que elas sejam ainda mais efetivas para cidades e áreas mais vulneráveis, tendo em vista que são locais com menor quantidade de recursos e tendem a sofrer mais pelos impactos causados pelas mudanças climáticas (ficarem sem energia ou água por mais tempo após alguma crise, por exemplo).

Como a principal característica dessas soluções é ser passiva, de baixo custo e consumo de recursos, elas devem ser incentivadas pelos gestores públicos desses locais, oferecendo um maior potencial de resiliência e de regeneração.




 
 
 

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